Muitos relatórios de inspeção de purgadores que circulam nas plantas são, no fundo, uma lista com "OK" e "trocar", sem localização precisa, sem perda estimada e sem explicação de como o teste foi feito. A manutenção não sabia por onde começar, a diretoria não via o valor, e na campanha seguinte ninguém conseguia comparar nada.
O Departamento de Energia dos EUA (DOE), na Steam Tip Sheet #1 (2006), recomenda que todo programa de inspeção de purgadores tenha um mecanismo de registro que garanta que a inspeção foi completa e que permita documentar a economia de energia e de dinheiro. É exatamente esse o papel do relatório. Abaixo está o que, na nossa experiência, ele precisa ter.
1. Identificação de cada purgador
- TAG único, de preferência com plaqueta fixada no campo, para que o mesmo purgador seja reconhecido nas próximas campanhas.
- Localização descrita de forma que um mecânico novo encontre o item: área, equipamento, elevação, referência visual.
- Foto do purgador instalado, com marcação quando houver algo a apontar.
- Croqui ou isométrico da rede, quando existir, com os TAGs indicados.
2. Dados da aplicação
Sem esses dados não dá para estimar perda nem julgar se o purgador é adequado:
- função (dreno de linha, traço de vapor, equipamento de processo, camisa, serpentina);
- pressão de trabalho a montante e destino da descarga (atmosfera ou retorno);
- tipo de purgador (termodinâmico, boia, balde invertido, termostático), fabricante, modelo e bitola;
- acessórios presentes: válvulas de bloqueio, filtro, visor, by-pass.
3. Método de teste
O relatório deve dizer como cada purgador foi avaliado: ultrassom, termografia, observação visual, ou a combinação deles. Também deve registrar as condições no momento do teste, como equipamento em carga ou parado. Um purgador de equipamento desligado não pode ser avaliado da mesma forma que um em operação. Explicamos os métodos e os limites de cada um no artigo como testar um purgador de vapor.
4. Condição encontrada
Use categorias claras e definidas no próprio relatório. As que adotamos:
- Funcionando: descarrega condensado e retém vapor;
- Vazando: deixa passar vapor vivo de forma parcial;
- Aberto: vapor passando de forma contínua e intensa;
- Travado fechado ou alagando: não descarrega, condensado acumulado a montante;
- Fora de operação: linha sem vapor, bloqueado ou equipamento parado;
- Aplicação inadequada: o purgador funciona, mas o tipo ou o tamanho não serve para aquele ponto.
5. Perda estimada em kg/h e R$/ano
Para cada purgador vazando ou aberto, o relatório deve trazer a perda estimada de vapor em kg/h e o custo anual em reais. E deve declarar as premissas usadas: diâmetro do orifício, pressão, coeficiente de descarga, grau de abertura considerado, horas de operação por ano e custo do vapor. Sem premissas declaradas, o número não pode ser conferido.
Nós usamos a equação de Napier com coeficiente de descarga de 0,6, que é conservador, a mesma da calculadora de perda de vapor do site. Se a planta não conhece o custo do vapor, o relatório deve dizer qual valor foi adotado e por quê.
Purgador travado fechado não aparece em kg/h, mas deve vir com a consequência descrita: equipamento alagado, perda de troca térmica, risco de golpe de aríete.
6. Prioridade e recomendação
Cada item com problema precisa de uma prioridade, baseada no custo da perda e no risco, e de uma recomendação objetiva:
- reparo (limpeza de filtro, troca de sede ou de kit interno);
- troca do purgador, indicando tipo e faixa de pressão adequados, independentemente de fabricante;
- correção de instalação (purgador coletivo, falta de filtro, falta de bloqueio, by-pass aberto);
- observações de sistema (isolamento danificado, trecho sem dreno, retorno pressurizado).
7. Resumo executivo e histórico
Na primeira página, o gestor precisa ver: quantos purgadores foram inspecionados, quantos estão em cada condição, a perda total estimada em kg/h e em R$/ano, e os dez itens que mais pesam. Também vale comparar a taxa de falha com a referência do DOE (2006): com programa regular de manutenção, os purgadores vazando devem ficar abaixo de 5% da população.
A partir da segunda campanha, o relatório deve comparar com a anterior: o que foi consertado, o que voltou a falhar, como evoluiu a perda total. É esse histórico que mostra se o programa está funcionando. O artigo sobre purgadores que falham sem manutenção trata da frequência das campanhas.
8. Premissas e limitações declaradas
Todo relatório sério diz o que ficou de fora. Purgadores inacessíveis no dia, equipamentos parados que não puderam ser avaliados em carga, linhas sem identificação: tudo isso precisa aparecer numa lista própria, para entrar na próxima campanha. O relatório também deve deixar claro que as perdas são estimativas de campo, calculadas a partir de orifício e pressão, e não medições de vazão. Com isso, quem lê sabe quanto confiar em cada número e onde vale aprofundar com medição.
O que desconfiar
- Economia "garantida" em porcentagem, sem lista de itens que a sustente.
- Perdas sem premissas declaradas.
- Recomendação de troca em massa por um único fabricante, sem justificativa ponto a ponto.
- Relatório que se apresenta como inspeção de segurança. A inspeção de segurança de caldeiras e vasos de pressão da NR-13 é de Profissional Legalmente Habilitado. Um relatório de purgadores trata de funcionamento e eficiência.
Para ver como organizamos tudo isso na prática, veja o relatório-modelo. Ele mostra o formato que entregamos ao final de cada inspeção de purgadores.
Se quiser comentar um relatório que você já tem ou entender o que viria no da sua planta, fale com a gente.
Perguntas frequentes
O que deve constar em um relatório de inspeção de purgadores?
TAG e localização de cada purgador, dados da aplicação, método de teste, condição encontrada, perda estimada em kg/h e R$/ano com premissas declaradas, prioridade, recomendação e, a partir da segunda campanha, comparação com a anterior.
Qual a diferença entre relatório de purgadores e inspeção da NR-13?
O relatório de purgadores avalia funcionamento e eficiência. A inspeção de segurança de caldeiras e vasos de pressão prevista na NR-13 é feita por Profissional Legalmente Habilitado e tem outra finalidade.
Qual taxa de falha de purgadores é aceitável?
Segundo o Departamento de Energia dos EUA, com programa regular de manutenção os purgadores vazando devem ficar abaixo de 5% da população instalada.




